Publicado por Valéria Dallegrave | 09 Mar 2010 - 18:50 | 0 Comentários comentários
Luz, câmera, formigação

Sabe aquele Tio Oscar?

Você sabe aquele parente chato de quem toda a família fala? Há até um certo consenso: é chato mesmo, mas não se pode DEIXAR DE FALAR DELE. Esse é o caso do “tio Oscar”...
Então, vamos primeiro a um pouco de história: A primeira premiação do Oscar, criado para homenagear atores, atrizes e diretores participantes da Indústria de Hollywood, foi em 1929, no Hotel Roosevelt de Hollywood, a poucos metros do Teatro Kodak, onde acontece a cerimônia atual. A origem do nome decorre, conforme se especula, da declaração de uma diretora-executiva da livraria da Academia, Margaret Herrick. Segundo ela, a estatueta dourada era muito parecida com “seu tio Oscar”.

O troféu já teve versões em bronze, gesso (2ª Guerra Mundial, devido à escassez de metais) e depois as estatuetas banhadas a ouro e prata que conhecemos hoje. O objeto simboliza o espetáculo do cinema e cada escolha anual mostra uma forma de pensamento dominante entre os que participam da indústria cinematográfica...

Kathryn Bigelow, foi a primeira mulher a receber o prêmio de melhor direção, por “Guerra ao Terror”, The Hurt Locker. Passou a perna no ex-marido, James Cameron, que conseguiu outra mega-bilheteria com Avatar (depois de Titanic).

Avatar, apesar de ser uma fantasia, expressa, através do planeta Pandora, a necessidade do ser humano voltar a viver em harmonia com a natureza. Os habitantes azuis (como os deuses hindus) seguem uma religião panteísta; acreditam que Deus está presente em todo o Universo e o mundo tem uma alma. Considerando as catástrofes que vemos acontecer no planeta nos últimos tempos, respeitar a Terra é um valor desejável a ser alcançado, não?

Já The Hurt Locker faz uma crítica à guerra (em geral ou à do Iraque?), mas remete à sensação da tragédia grega, de uma ordem inevitável (antigamente regida pela vontade dos Deuses) determinando o destino do ser humano de tal forma a nos provocar os sentimentos de pena e terror. O filme dá a idéia de que as guerras são inevitáveis, e geram heróis/viciados (a guerra é a DROGA que os vicia). A pergunta é: hoje em dia, o que rege essa ordem inevitável? A indústria armamentista? Os governos? O capital? Bem, se a noção de cidadania fosse forte, as populações decidiriam seu rumo, mas no mundo capitalista em que vivemos, somos muito mais consumidores do que cidadãos. O que me lembra o quanto, no filme, o corredor de supermercado, opondo-se ao ambiente de guerra com uma tranqüilidade exagerada, faz parte de uma realidade distorcida e sem sentido...

Meu preferido ainda é Preciosa, do diretor estreante, Lee Daniels, que mostrou pulso firme ao não permitir que a história se transformasse em um melodrama. Não ganhou nas categorias filme, edição, direção e atriz. Levou a estatueta de melhor atriz coadjuvante, Mo´Nique, que atuava em comédias “stand up” e demonstrou que uma performance excelente pode ser reconhecida, sem precisar submeter-se a jogos políticos... O roteiro, adaptado por Geoffrey Fletcher também foi premiado. Nele, há a esperança de que o indivíduo, mesmo sem poder aquisitivo e fora dos padrões estéticos dominantes, ao receber atenção (amor) e valorização, é capaz de crescer e conquistar a si mesmo, alcançando um pouco daquilo que chamam “felicidade”. Ou seja: MODIFICA SEU DESTINO apesar desses “deuses modernos” que geram a desigualdade social, dividindo os homens entre ricos e pobres, celebridades glamourosas e anônimos invisíveis...
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